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Aplicativo auxilia o desenvolvimento de autistas


Aplicativo auxilia o desenvolvimento de autistas
Eraldo Guerra, CEO & Founder da startup Life Up e criador do software Cangame (Foto: Debora Castro/Portal da Band)
Cerca de 150 mil casos de autismo são diagnosticados todos os anos no Brasil. De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), cerca de 1% da população mundial possui algum grau do transtorno, representando cerca de 70 milhões de pessoas. Já no Brasil, a incidência do autismo é estimada em cerca de 2 milhões de pessoas. 
O TEA (Transtorno do Espectro Autista) afeta o desenvolvimento neurológioco  e pode se manifestar em níveis classificados como leve, moderado ou intenso. Com incidência maior em pessoas do sexo masculino, o transtorno  pode causar prejuízos nos relacionamentos pessoais, interação social, comportamento e na comunicação. 
Esses dados e as dificuldades enfrentadas pelas pessoas acometidas pelo distúrbio foram o ponto de partida para o engenheiro Eraldo Martins Guerra, que em 2011 desenvolveu o aplicativo Cangame (“can” vem do inglês “posso” e “game” quer dizer “jogo”). A ferramenta foi desenvolvida em sua startup Life Up. Gratuito, o software visa estimular quem tem a condição, que é permanente. 
O azul, cor símbolo da doença por atingir mais meninos do que meninas, é a cor é predominante na interface do software. 
O transtorno
O tratamento ao autista ou da pessoa acometida pela síndrome de Asperger (transtorno de desenvolvimento que afeta a capacidade de se socializar e de se comunicar com eficiência) deve ser iniciado o quanto antes. Cristiane Sugawara, terapeuta ocupacional de uma instituição filantrópica de longa permanência para deficientes intelectuais e físicos em Atibaia, no interior de São Paulo, explica que o auxílio da terapia ocupacional para o desenvolvimento das pessoas com TEA representa a melhora da autonomia nas atividades de vida diária e independência nas atividades de vida prática, além da integração sensorial, que evita alterações no comportamento e ajuda a desenvolver atenção e concentração.
O aplicativo Cangame Maker é baseado em três métodos considerados os melhores por especialistas, o ABA (Applied Behavior Analisys ou Análise Comportamental Aplicada), TEACCH (Treatment and Education of Autistic and Communication Handicapped Children ou Tratamento e Educação de Crianças Autistas e com Desvantagens na Comunicação) e o ensino estruturado e Sistema de Comunicação por Troca de Figuras (do inglês, Picture Exchange Communication System), mais conhecido como PECS.
Durante quatro meses, Guerra discutiu com profissionais especializados em transtornos intelectuais – pedagogos, psicólogos, fonoaudiólogos, professores de educação inclusiva, entre outros – sobre quais as melhores práticas para auxiliar no desenvolvimento de pessoas portadoras do TEA, antes do início do processo de desenvolvimento do aplicativo.
Facilitar o processo 
“Não queríamos substituir ou ir contra ao que já existe no mercado, pelo contrário, a ideia da ferramenta é facilitar o processo e, que através dessa facilidade, se consiga reduzir o tempo e custo em relação ao tratamento e aprendizado”, disse o CEO, que desenvolveu o software pensando também nos profissionais ligados ao aprendizado de pessoas autistas e com síndrome de Asperger.
Guerra, que não tinha parentes, amigos e não conhecia ninguém do universo autista, começou a se interessar pelo tema após trabalhar em projetos sociais em escolas públicas.A falta de convívio com pessoas diagnosticadas pelo problema foi seu grande desafio e o principal motivo para a realização de seu projeto era descobrir no que ele resultaria.
Processo de desenvolvimento do software
O processo de criação do Cangame começou em meados de 2011, e até então existia pouca bibliografia, projetos e materiais de acesso, segundo conta o engenheiro. Além dessas dificuldades, existia o preconceito e rejeição de alguns pais que acreditavam que a deficiência de seus filhos era apenas uma fase, e acabavam não participando, por medo de constrangimento social. Na mesma época, a maioria das pessoas e até profissionais da educação acreditavam que os autistas eram impossibilitados de se integrar à sociedade e irem à escola, por conta da resistência que eles têm em aderir os métodos tradicionais, tanto na aprendizagem como no tratamento psicológico e psiquiátrico. 
“Corri o Brasil todo para conseguir parceiros, pessoas que pudessem colaborar, entre profissionais de saúde, educação, mães e pais. E isso foi muito bom para me enriquecer culturalmente e me apaixonar ainda mais pelo universo autista”, disse o empreendedor.
A ferramenta não é uma criação do zero, sem base científica ou sem laudo. Para a criação, Guerra conta que foram utilizados os principais eixos de tratamentos. “A gente conseguiu criar um híbrido entre as metodologias ABA, PECS e TEACCH, e pegamos o que consideramos melhor para atuar dentro do aplicativo”, explica o empreendedor.
Depois do desenvolvimento – que durou aproximadamente oito meses –, o aplicativo foi levado para teste em clínicas e famílias em diversos lugares do Brasil, para entender a cultura e a necessidade de cada autista. Além disso, foram criados grupos por fases da vida para atender as especificidades, já que as necessidades entre crianças, jovens e adultos autistas são distintas.
Como funciona 
Conectado ao videogame ou em um computador, o Cangame tem um formato de quiz, com perguntas e desafios que procuram estimular a pessoa acometida pelo TEA. A cada erro e acerto, o jogo mapeia as atividades motoras e lógicas do jogador. Os resultados são enviados para os médicos, procurando auxiliá-los em possíveis diagnósticos.
Além da possibilidade de estar presente nas salas de aula, o autista pode brincar com seus pais e amigos, já que o software estimula o portador a desenvolver desde tarefas básicas, como arrumar casa e tomar banho, às mais específicas como a alfabetização. O game mostra o que ele acertou ou errou e o que ele pode melhorar.
Resultados 
Disponível nas plataformas Android, iOS e também em videogames com Kinect, o aplicativo tem passado por diversas mudanças desde seu desenvolvimento. 
“Gosto sempre de falar dos resultados positivos e negativos. Crianças que tinham dificuldades muito grandes de se comunicar e expressar, através do jogo conseguiram soletrar as primeiras letras, falar as primeiras palavras e até construir frases. Isso para nós foi muito importante, tanto que criamos nosso marketing voltado à pergunta ‘Você sabe o valor de um sorriso?’. O sorriso de uma mãe ao ouvir as primeiras palavras do filho, o sorriso de um autista a se sentir incluído. Mas também tivemos muitos problemas no começo por não conhecermos bem do universo”, diz Guerra.
Desafios 
Um dos exemplos de problemas apontados pelo criador do software foi de uma criança autista que não quis usar o aplicativo por sua interface ser em azul, já que ele referenciou a cor ao time de futebol Grêmio, arquirrival de seu clube de coração, Internacional – cuja bandeira é composta por vermelho e branco. Foi aí que ele entendeu que cada usuário tem sua característica e necessidade, e que isso poderia por em risco o tratamento dos pacientes. 
Reprodução da interface do aplicativo Cangame Maker
Reprodução/Aplicativo

Segundo o engheiro, isso serviu de base para melhoras e atualizações no software, que passou por várias transformações nos últimos três anos, buscando que cada indivíduo crie seu plano de aprendizado individualizado.
Resultados 
Foi por meio do GEAPE (Grupo de Estudos sobre o Autismo em Pernambuco), onde Guerra fez uma divulgação do software, que Andrea Agnes, de 41 anos, ouviu falar pela primeira vez sobre o aplicativo. Pedagoga e mãe da Luisa, de 7, ela descobriu há dois que, além de altas habilidades, sua filha, tem ainda a síndrome de Asperger. “A insônia foi uma das primeiras queixas que nos levou a procurar um profissional da psicologia e posteriormente foi indicado uma consulta ao neurologista que teve a hipótese da síndrome”, disse Andrea. 
“Desde seu nascimento sempre foi inquieta e esperta. Sempre precoce no desenvolvimento de habilidades para sua idade. Como também se irrita fácil. Aprendia fácil. Tinha memória precisa e vocabulário rebuscado. Na interação social não respondia aos adultos. Sua paixão eram as crianças”, conta a pedagoga. Por isso, seu objetivo foi tratar as sensações e emoções através das expressões faciais. “Criei PECS para cada tema: sorriso, tristeza, nojo, raiva etc., coloquei imagem, gravei áudios e foi muito boa a interação”.
Especialistas e pais recomendam
“A ideia de um aplicativo que tivesse imagens e a escrita é ideal para a pessoa com TEA. De fácil uso, ele faz com que o paciente, seja criança ou adulto, esteja sempre aprendendo e, assim, possa ser mais autônomo e independente”, aprova a terapeuta ocupacional Cristiane Sugawara, que conheceu o jogo há dois anos e desde então virou uma das parceiras de seu criador. Ela complementou sua recomendação dizendo que, além de eficaz, o software serve para todas as idades e é fácil de ser utilizado, podendo virar até uma agenda para autistas adultos.
Além de mãe da pequena Luisa, Andrea Agnes é uma das embaixadoras da ferramenta e diz que exercer essa missão no Cangame é acreditar na mesma filosofia de interesse do software, que é auxiliar os autistas. Como educadora, ela pode ajudar com os conhecimentos pedagógicos dentro do jogo. “Não concluo que ele seja autossuficiente e não é esse o objetivo do aplicativo. O Eraldo não quis ter algo pronto, como um jogo que você dá um play e tudo está ali dentro. O Cangame é feito para que os pais, profissionais e o próprio autista façam a inserção de informações, criem rotinas e PECS, não apenas como complemento, mas pode sim ser uma ferramenta para trabalhar quaisquer ganhos na interação social e da linguagem dos pacientes”, completa a pedagoga.
Passos para o futuro
O Cangame já está presente em 11 países pelo mundo e tem aproximadamente cinco mil downloads na plataforma Android – o que não é necessariamente o número de usuários, que pode chegar a 150 por download. Recentemente, o software chegou à Europa.  
A Life Up foi a primeira startup brasileira a desenvolver tecnologias para pessoas autistas. Ela foi ganhadora em 2017 do prêmio de Cidadania Mundial no concurso “Imagine Cup 2014”, promovido anualmente pela Microsoft.  Ficou em primeiro lugar no Brasil no WSA (World Summit Award Mobile), que é uma iniciativa global para selecionar e promover o melhor conteúdo móvel e aplicações inovadoras no âmbito da Cúpula Mundial das Nações Unidas sobre a Sociedade da Informação (WSIS), e vai concorrer pelo prêmio mundial com entre outras startups de vários países. 
Guerra diz estar muito satisfeito por levar seu produto para além do Brasil e conquistar o respeito do corpo médico que, para ele, é um ótimo retorno além dos resultados que o aplicativo pode oferecer. Ele pretende fazer mudanças para aperfeiçoar o Cangame, conforme as plataformas forem ficando cada vez mais tecnológicas, sempre levando em consideração as especificidades de cada usuário. 
 
 
Fonte: BAND

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